Voltei ontem à "minha" Shanghai. Quando passei na estação de Jinxia antes de Shanghai fiquei com a mesma sensação de quando passava na estação de Vila Nova de Gaia quando estava a chegar à Nação. Mas vamos começar pelo início.
Podia dividir esta viagem num antes de Macau, Macau e pós-Macau dada a cadência de situações que me foram aparecendo pelo caminho.
Saí de Shanghai na segunda-feira rumo a Shenzhen onde sabia que podia passar de barco até Macau, numa viagem de comboio de 18 horas.
Levei apenas uma mala com roupa e uma mochila onde levava sandes, bebida e alguns documentos. E as aventura desta viagem começaram quando estava a chegar a esta zona económica especial da China, Shenzhen, porque enquanto estava a descansar roubaram-me a mochila. Não perdi a calma, principalmente porque já tinha comido as maravilhosas sandes que a Elsa me tinha feito (isto soa a graxa descarada, e é mesmo) :D. Apesar de ter perdido alguns documentos importantes e uns 300 euros em dinheiro resolvi continuar até Macau, pelo menos tinha o passaporte num bolso.
À saída da China (tal como à entrada) é necessário preencher uma série de impressos essencialmente acerca do estado de saúde. E após isto entrei no barco que me levou até Macau. Termina aqui a primeira fase da viagem.
Já visitei vários lugares aqui na China, e a diferença cultural entre cada um deles sempre me fascinou (mostra a grandeza cultural da China e o quão redutor é julgar a China e os Chineses por detalhes específicos de uma situação específica) e Macau não foge à regra.
As primeiras impressões foram positivas e não posso deixar de realçar o meu espanto quando me aproximei de uma passadeira e os automóveis pararam imediatamente para me deixarem passar, é motivo de espanto porque vivo numa cidade onde temos normalmente de esperar uns 10 minutos para atravessar qualquer passadeira sem problemas.
A arquitectura Portuguesa está presente por todo o lado na península, foi curioso ver Português escrito por todo o lado (ou no nome das ruas e avenidas, ou nas farmácias, mercearias, relojoarias, ...) e casinos, muitos casinos (foi curioso reparar que junto a quase todos os casinos há uma casa de penhores ;) ). Mas a verdade é que juntamente com ruínas de símbolos de Portugal (ou do Vaticano) passados, a presença Portuguesa fica por aqui.
Meio-dia depois de ter chegado, quando andava eu a passear na Praça do Senado (a mais conhecida praça de Macau) fui encontrado pelo Sérgio. Que do lado de lá da rua começou a gritar "Ruinix! Ruinix!". O Sérgio está em Macau há 3 meses, conhece o meu weblog quase desde o início e acompanhou-o ainda em Portugal, disse-me que acha muita piada ao que escrevo e que o ajudou bastante a ele também e que às vezes sou um pouco ácido (não sei porquê...) :D, e que leu que ia estar em Macau nestes dias. Tinha os meus contactos, que estão escancarados no ruinix.net, mas nem foram precisos.
Mostrou-me ainda mais detalhadamente Macau e os diversos pontos de interesse. E como é evidente espero retribuir esta ajuda quando ele vier a Shanghai. Depois começou a fase pós-Macau.
Depois de tudo resolvido em Macau voltei a Shenzhen onde tinha planeado voltar o mais rapidamente possível a Shanghai. Mas a viagem de regresso não correu como planeei. Os bilhetes de comboio Shenzhen-Shanghai estavam esgotados para a semana toda.
"Ok, o que faço agora?", pensei eu. Não havia bilhetes ali para Shanghai, haveria certamente em cidades maiores (capitais de região) ali à volta. Lembrei-me de Guangzhou e Hong Kong também. Decidi ir a Guangzhou.
Guangzhou foi conhecida até há pouco tempo como Cantão.
Quando se diz que os Chineses comem tudo o que mexe, não são todos os Chineses. São estes. Gatos almiscarados, gafanhotos, escorpiões, macacos, há para todos os gostos, ou não ;). Desta vez só provei gafanhotos, faltava-me esta iguaria aqui na China. Mais uma para o menú pessoal ;).
Em Guangzhou consegui um bilhete de volta a Shanghai (era o único bilhete, tive uma sorte tremenda) e apesar de um pouco mais caro que o normal, dadas as contingências não hesitei em ficar com ele. Fiz a viagem com mais 3 Chineses (dois Avós e a neta de 10 anos) num compartimento com 4 camas.
Nesta viagem conheci também o Vincent, um Francês que andava a conhecer alguns locais da China, entre os quais Shanghai, e que tem uma empresa de TI em Milão. E entre conversas engraçadas, TI, humor geek, histórias, boa disposição esta viagem de 16 horas trouxe-me de volta a Shanghai.
Gostei de Macau, tenho de lá voltar com a Elsa.
Já publiquei algumas fotos aqui, nos próximos dias publicarei mais.
Comecei a minha aventura chinesa há um ano. Parece-me mentira, acho que vivi mais neste ano do que em todos os outros anteriores. E a minha vida sempre foi tudo menos monótona.
Por muito que escreva aqui, e acho que é claro para toda a gente, fica sempre tanto por dizer. Talvez tudo por dizer. Há sensações, experiências que as palavras não dizem, que as fotos não mostram. Não há mecânica quântica que o explique.
Não sei se vou ficar aqui mais um ano. Talvez sim, talvez não. Mas faça o que fizer, vá para onde fôr vou tentar manter actualizado este "diário de bordo" porque há gente que vai comigo sempre, para todo o lado.
Obrigado por continuarem a aparecer, bem-vindos os novos leitores. Voltem sempre.
Ah, mas estou muito bem impressionado com Macau, quando chegar a Shanghai vou escrever um post com mais calma. Quero voltar aqui outra vez.
Fazem-se balanços quando um ano passa. Passou um ano que vivo na China.
Foi curiosamente o primeiro ano que vivi fora de Portugal e ao mesmo tempo o melhor e o pior ano da minha vida. O ano que me fez ver tanta coisa (tudo?) de forma diferente.
Estou em Macau. Desengane-se quem pensa que isto é meio Português, de Português só o nome de algumas ruas e aquela igreja toda despedaçada ali que toda a gente acha muito bonita. Para mim é o retrato da ICAR, não só aqui.
Como nómada, vadio como alguém me definiu :D, não sei se daqui a um ano estarei a escrever que passaram dois anos. Mas vêmo-nos por aí. ;)
Hoje é o meu último dia de trabalho antes de ir a Macau na próxima segunda-feira. E mal cheguei ao escritório de manha fui presenteado por uma sobremesa/doce home-made feita pela Vicy segundo ela chamada gui ling gao, sobremesa esta que consistia numa espécie de batido de chocolate com pedaços (moles!!!) de carapaça de tartaruga.
Estava delicioso.
Também o almoço foi especial e muito bom.
Mas isto até parece uma despedida... I will be back!! :D
O único acto heróico na época dos Achamentos vulgo Descobrimentos portugueses foi quando os navegadores portugueses afastaram da costa chinesa os piratas que impossibilitavam as rotas comerciais da China. Como reconhecimento, a China ofereceu uma parte do seu território. Aoman ou Macau.
O historial de barbárie que os achadores portugueses espalharam pelo mundo é conhecido. Mesmo na China, Portugal diz-se Putaoya. Putao significa uva e ya significa dente. A primeira explicação que ouvi para isto foi que num sentido figurado dente significava o que os chineses acharam dos portugueses, uns bárbaros, gente sem cultura, pouco civilizada e uva significava que além de bárbaros os portugueses eram uma cambada de bêbados. Mas já ouvi também que usaram a palavra dente porque os portugueses quando chegaram a terra vinham cheios de fome e apontavam para a boca para que lhes oferecessem alguma comida.
Mas ao contrário dos portugueses em Macau, a China já sofreu várias agressões estrangeiras. A última foi do Japão.
Todos vimos há dias o imperador japonês prestar uma cobarde homenagem aos soldados mortos nessa guerra. Nessa altura este imperador era miúdo pelo que não lhe devem ter explicado bem o que aconteceu.
A brutalidade começou na Coreia passando pelo norte da China, Pequim e culminou no massacre de Nanjing. Aqui os soldados japoneses em pouco tempo violaram mais de 20 mil mulheres chinesas. Será a estes nobres soldados que o imperador presta homenagem?
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