Quem sabe alguma coisa sobre a China e sobre os chineses, sabe que parte deste povo é bastante supersticioso (seja essa superstição budista, taoista, judia, árabe, cristã, pagã ou de qualquer outro tipo) e sabe também que este país é constitucionalmente um país ateu. Verdadeiramente ateu.
Ou seja, ninguém é perseguido por "acreditar" no que quer que seja mas também não é promovida nenhuma superstição.
Aqui não existem concordatas. E é certamente uma das razões porque me sinto bem aqui.
No passado sábado fui com a Elsa e uns amigos finlandeses ao conhecido restaurante português em Shanghai, o Sandoz.
Quando chegamos lá, descobrimos que este restaurante, que em tempos até estava decorado com uma bandeira portuguesa, passou a... marroquino.
Mas fomos na mesma e gostei bastante dos pratos. Desde o couscous ao tajine, passando pela pastilla e algumas tartes.
Como alguém comentou comigo em tempos, "haverá mais algum lugar, além de Shanghai, em que tenhamos o mundo numa cidade?!".
Depois de uma viagem Londres - Shanghai um pouco atribulada por causa de um tufão na China, onde por exemplo o avião ao aterrar balançava de tal maneira que quase batia com as asas no chão, cheguei bem a Shanghai e muito contente por ter voltado.
Mas dois anos depois voltei a Portugal e não foi difícil nem demorou muito tempo até perceber que tão cedo não volto a viver ali... não sou um emigrante mas sim um refugiado.
Disse muitas vezes que Portugal estava essencialmente na mesma dois anos depois mas não é verdade ou pelo menos não muito preciso. Seguiu, isso sim, o caminho reaccionário em que já estava enterrado.
De cada vez que ligava a televisão fosse na RTP1, RTP2, SIC, TVI ou de cada vez que lia um qualquer jornal percebia a razão da estupidez, hipocrisia e mesquinhez generalizadas com mentiras mais ou menos disfarçadas e falaciosas.
Igreja, império e a sua sucursal neste país vulgo governo português, politiquice, mentiras, subtilezas, mediocridade. Tudo junto, a toda a hora, mostraram-me que este não é actualmente um país para mim.
Quando me chegam vídeos americanos cheiram-me logo a propaganda e nem os costumo ver por mais pomposa que seja (estilo Al Gore) a apresentação. Alguns dizem que é paranóia minha, outros dizem que é por ser um "comuna do pior", outros dizem ainda que é por causa da China.
Mas este foi-me enviado por um amigo e achei-o interessante:
Nesta última vez que fui a Lisboa conheci duas viajantes chinesas que andavam a conhecer Portugal. Estava sentado num banco da estação de Santa Apolónia à espera do alfa para me trazer para o Porto quando me apercebi que falavam chinês por ali enquanto olhavam para mim, soube mais tarde que falavam da minha estrela vermelha.
Eu abordei-as e apesar do espanto inicial pelo meu "ni hao", estivemos algum tempo a conversar e a trocar impressões sobre Portugal e a China. Elas disseram-me que eram as duas de Beijing e que tinham chegado há cerca de uma semana e tinham conhecido Lisboa e agora iam para o Porto. Por coincidência fomos no mesmo comboio e durante a viagem fui-lhes dizendo quais os mais emblemáticos locais no Porto para visitar.
Percebi que elas ficaram bastante contentes pela ajuda e lembrei-me logo da Lee Kiki e da Suzen Ding que em 2006 me ajudaram a chegar à China e a Shanghai mesmo antes de ter saido de Portugal.
A minha amiga Carla Margarida fez-me uma entrevista acerca da China, de Portugal e de muita coisa pelo meio.
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Estás de volta dois anos depois. É para ficares? :D
AHAH!! Não. Depois destes dois anos na China é para mim ainda mais claro que nenhum lugar, nenhuma cultura, nenhum país da Europa me atrai minimamente para viver e trabalhar. Por outro lado, gostava de experimentar outras paragens na Ásia e também na América Latina. Mas de qualquer das maneiras estou bastante bem na República Popular da China, a China é a minha casa.
Isso é o mais importante. O que estás a ler neste momento?
Cadernos da Casa Morta do Fiódor Dostoiévski, uma oferta literária em Portugal.
Quem lê o ruinix.net percebe que as tuas interpretações em primeiro plano, ao vivo e a cores, da realidade chinesa são muito diferentes das que chegam aqui muitas vezes por outros meios de informação.
Como sentiste as reacções em Portugal relativamente à China?
Como em tudo, há pessoas inteligentes com análises honestas e factuais das diversas situações que envolvem a China, gente que pensa e sabe pensar. E que sabe muito sobre a China, e sobre o que importa, mesmo sem ter posto lá os pés.
De resto, também a saloiada de outros se mantém na mesma, nem esperava que fosse diferente. Pessoas que não fazem a mais pequena ideia do que é a China (e diga-se, de tudo o resto também) e ostentam orgulhosamente a sua ignorância e os seus complexos de inferioridade.
Conhecidas são também as tuas referências religiosas. O que sentiste quanto a isto?
Senti que mais gente do que pensava continua a ler atentamente essas “referências religiosas”, o que me deixa contente.
A quantidade de igrejas que vi nesta terra dois anos depois de ter saido, foi na verdade algo que me fez grande impressão e que reparei imediatamente. Vivi em Portugal 24 anos antes e nunca me tinha incomodado tanto, funciona mesmo como publicidade subliminar.
Depois do que te impressionou negativamente em Portugal, o que mais te impressionou pela positiva na China nestes dois anos?
O povo chinês. Mais do que todas as coisas lindíssimas que vi, paisagens inesquecíveis, monumentos grandiosos ou lugares míticos. O povo chinês foi sem qualquer dúvida o que mais me impressionou e só percebendo o povo chinês se percebe a China.
Mas sei que visitaste muitas cidades. Alguma preferência?
Tenho várias preferências, em várias cidades, por vários motivos e para várias situações. Apesar de tudo o que já vi, Shanghai continua a ser o meu lugar preferido para viver e trabalhar. Um mês não chega para a conhecer completamente, aliás dois anos depois ainda me deparo com lugares que ou não conhecia ou já mudaram completamente. Mas se por motivos profissionais tivesse de sair de Shanghai, Beijing ou Hongkong poderiam ser os meus destinos na China. De resto, é quase injusto definir preferências de paisagens naturais. Acho que todos os lugares chineses se complementam e formam a grandiosidade e variedade cultural da China.
Contas voltar a Portugal?
Acho que vou dar algumas voltas ao mundo antes de voltar a entrar em Portugal.
Incomodam-te as pessoas com ideias erradas da China?
AHAH!! Muito pouca gente tem o poder de me incomodar. E ainda menos sobre a China.
Obrigada Rui. É sempre um prazer falar contigo.
É bom voltar a Portugal para reencontrar pessoas como tu. :)
Um beijo!
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